Agosto Lilás: combater a violência contra a mulher também é uma questão de saúde
O Agosto Lilás é um período dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher no Brasil. A campanha ganha ainda mais relevância por estar associada ao aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, e por ampliar uma discussão que não pode permanecer restrita à segurança pública ou ao campo jurídico: a violência contra a mulher também produz consequências profundas para a saúde.
Os impactos podem permanecer muito depois de uma situação de violência e não se limitam às agressões físicas. Ansiedade, depressão, alterações no sono, medo, isolamento social, problemas relacionados à saúde sexual e reprodutiva e outras consequências podem fazer parte da realidade de mulheres submetidas a diferentes formas de violência. Reconhecer essa dimensão é fundamental para construir respostas que integrem proteção, acolhimento e cuidado.
Um problema que ainda faz parte da realidade brasileira
A dimensão da violência contra as mulheres no país ajuda a demonstrar por que o tema exige atenção permanente. A 5ª edição da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2025, estimou que 37,5% das brasileiras com 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência ou agressão nos 12 meses anteriores à pesquisa, o equivalente a aproximadamente 21,4 milhões de mulheres.
Os números ajudam a afastar a ideia de que se trata de uma realidade distante ou excepcional. A violência pode acontecer em diferentes contextos sociais e assumir formas que nem sempre deixam marcas visíveis, tornando informação, identificação e acesso às redes de apoio elementos essenciais para seu enfrentamento.
Também é por isso que campanhas como o Agosto Lilás são importantes. Ao ampliar a circulação de informações e estimular conversas sobre o assunto, o período contribui para tornar situações de violência mais reconhecíveis e fortalecer a percepção de que buscar ajuda é parte fundamental do processo de proteção.
Quando a violência ultrapassa as marcas visíveis
A associação mais imediata com a violência doméstica costuma estar relacionada às agressões físicas, mas a Lei Maria da Penha reconhece também as violências psicológica, sexual, patrimonial e moral. Essa compreensão mais ampla é particularmente importante porque diferentes formas de abuso podem coexistir e produzir consequências significativas para o bem-estar.
Sob a perspectiva da saúde, os efeitos também podem assumir diferentes dimensões. A Organização Mundial da Saúde reconhece a violência contra a mulher como um grave problema de saúde pública e aponta sua relação com consequências físicas, mentais, sexuais e reprodutivas.
Olhar para essas consequências amplia a compreensão sobre o próprio cuidado em saúde. Uma mulher que procura atendimento por ansiedade, dores recorrentes, alterações de sono ou outros sintomas pode estar vivendo uma situação que exige uma abordagem capaz de considerar não apenas o quadro clínico imediato, mas também o contexto em que ele está inserido.
Saúde também significa acolhimento
Profissionais e serviços de saúde podem ocupar uma posição importante na identificação e no acolhimento de mulheres em situação de violência. Em alguns casos, uma consulta pode representar um dos poucos momentos em que a mulher consegue estabelecer contato reservado com alguém fora do ambiente em que a violência acontece.
Isso exige uma abordagem responsável, baseada em escuta qualificada, privacidade e ausência de julgamentos. O objetivo não é transferir aos profissionais de saúde toda a responsabilidade pelo enfrentamento da violência, mas reconhecer que uma rede de proteção eficiente depende da articulação entre saúde, assistência social, segurança pública, Justiça e demais serviços especializados.
Quanto mais preparados estiverem os diferentes pontos dessa rede, maiores são as possibilidades de oferecer caminhos seguros para mulheres que precisam de apoio.
Informação também faz parte da proteção
Um dos desafios do enfrentamento à violência está justamente em reconhecer que determinadas situações constituem abuso. Violência psicológica, controle excessivo, ameaças, humilhações, restrições financeiras e outras formas de agressão podem se desenvolver gradualmente e ser naturalizadas dentro de uma relação.
Campanhas de conscientização ajudam a romper essa normalização ao oferecer informação para que mulheres, familiares, amigos, colegas e toda a sociedade consigam identificar sinais que merecem atenção. Essa conscientização também precisa caminhar ao lado da divulgação dos canais oficiais e serviços especializados disponíveis para orientação, denúncia e proteção.
No Brasil, o Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher é um dos principais canais públicos de orientação e encaminhamento para mulheres em situação de violência. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.
O compromisso com a saúde precisa considerar todas as dimensões do cuidado
Promover saúde significa compreender que bem-estar físico, emocional e social estão profundamente conectados. Por isso, ampliar o acesso aos serviços também envolve construir jornadas capazes de acolher pessoas em diferentes momentos e necessidades, inclusive quando o problema ultrapassa os limites de uma condição estritamente clínica.
Para a RM Saúde, contribuir para um acesso mais simples e próximo aos serviços de saúde faz parte dessa visão ampliada de cuidado. Informação de qualidade, atendimento adequado e redes acessíveis podem ajudar a criar caminhos para que mais pessoas encontrem o suporte de que precisam.
O Agosto Lilás termina, mas o enfrentamento à violência contra a mulher precisa continuar durante todos os meses do ano. Transformar conscientização em proteção exige informação, acolhimento, acesso e uma rede preparada para ouvir e agir. Mais do que reconhecer o problema, é necessário construir uma sociedade em que mulheres possam viver com segurança, dignidade e saúde.






